Rebreathers Divers Brazil

Apareceu um “ribritheiro” no meu barco e agora?

by Eduardo Macedo:

Com o aumento das ofertas de cursos e máquinas o rebreather no brasil e no mundo os Rebreathers ou CCR, tem sido visto com mais frequência nas operações de mergulho recreativo.

Conhecido como “Dark Side” do mergulho algumas das operadoras de mergulho recreativo, por não ter um conhecimento sobre estas maravilhosas máquinas e pela fama de que é muito perigoso, têm medo do acesso a estes mergulhadores que na maioria das vezes tem que sair em operações especiais ou somente para eles.

O operador de mergulho ou responsável pela operação sempre se preocupa em manter a segurança de todos a bordo e garantir que os mergulhos serão executados dentro das normas de segurança a fim de gerenciar os riscos inerentes a atividade.

Porém,  como um instrutor ou divemaster de mergulho recreativo ou mesmo o proprietário da embarcação/operadora poderá garantir ou gerenciar os riscos do mergulho com rebreather sem conhecer nada sobre estas máquinas e procedimentos?

Esta matéria visa ao menos ajudar os operadores de mergulho, divemaster e instrutores a receber estes clientes em suas casas com alegria e presteza pois são clientes muito valiosos.  Na maioria investem mais em equipamentos que um mergulhador recreativo investiria em anos. Investem muito tempo de treinamento, mais até que muitos profissionais de mergulho. Ou seja, eles são o sonho de toda escola:  mergulhadores dedicados, atentos, responsáveis, investem muito tempo em estudos e cursos e gostam muito de mergulhar afinal, quem gosta de ficar 5 horas de baixo da água é porque gosta muito de mergulho. Com certeza não são aqueles mergulhadores de momento que apenas querem uma certificação para mergulhar em Noronha (e depois não voltam na escola nem para buscar a certificação definitiva).

Existem algumas dúvidas de operadores que iremos discutir:

  1. Procedimentos de analise formal de treinamento (certificação)
  2. Procedimentos de checagem do equipamento e pré-mergulho.
  3. Procedimentos logísticos.
  4. Procedimentos de emergência (como ajudar em caso de emergência?).
  5. Procedimentos em caso de acidente.

Procedimentos de analise formal de treinamento.

Como o operador de mergulho é responsável pela segurança de todos e responsável pela verificação da habilitação para mergulhar (ABNT NBR ISO 24803:2008 ) vamos ver como verificar a certificação de um mergulhador de rebreather. Todo operador de mergulho sabe verificar uma certificação de mergulho recreativo, mas será que sabe verificar uma certificação de mergulho com CCR?

Vamos ajudar:

Procedimentos na verificação de certificação de mergulho com rebreather – Verificação formal:

Diferentemente das certificações de mergulho recreativo as certificações de mergulho com rebreathers estão diretamente relacionadas a máquina ou o rebreather que ele usou durante o curso (e na maioria das vezes é o proprietário).

Exemplo:  Um mergulhador fez o curso para aprender a mergulhar com o rebreather O2ptima do fabricante Dive Rite ou o Prims2 do fabricante Hollis, a certificação deste mergulhador deverá conter o nome da máquina (não existe certificação genérica).  Veja este exemplo abaixo, do  certificado como Mergulhador da máquina Megalodon do fabricante Innerspace:

tdicard

A certificação deve vir com os limites no qual este mergulhador pode usar esta máquina.  Neste caso acima por exemplo, eu apesar de ser Instrutor Trainer (treinador de instrutores) de O2ptima e de Poseidon em níveis mais altos que esta,  não posso ir mais fundo do que 30 metros com a máquina Megalodon da Innerspace e nem fazer descompressão.

Certificação específica para uma atividade específica.

Assim como no mergulho recreativo, a certificação para uma especialidade deve ser exigida se o mergulho será executado além dos limites recreativos, por exemplo: penetração em naufrágio ou caverna, mais fundo que 40 metros ou mergulho com misturas como trimix.

Neste caso a certificação será como este exemplo:

tdicave-card

Este mergulhador pode mergulhar com CCR em cavernas no nível máximo de caverna.  Mas note que neste caso não aparece qual máquina ele usará neste mergulho.

Então como pode perceber as duas certificações poderiam ser exigidas. (lembrando que este procedimento é apenas uma sugestão).

Experiência e tempo de mergulho bem como o ultimo mergulho. 

Rebreathers eletrônicos tem seu próprio computador e logbook.  Isso torna mais fácil a obtenção da informação do ultimo mergulho realizado, profundidade máxima a qual este mergulhador já foi ( com esta máquina) e outras informações.  Como ver isso:

Uma das opções é pedir ao mergulhador que mostre o log book do computador do rebreather. Por exemplo este é log book do O2ptima com computador da Shearwater , mostrando o ultimo mergulho.

Outra opção é pedir o download do log book do computador. O operador pode ter instalado em seu computador PC os softwares de diversos fabricantes se desejar.

graph

Nota: O log book tradicional também pode ser utilizado.

Em algumas agências o mergulho com rebreather existe no mergulho recreativo.  Uma pessoa pode fazer o curso básico já com rebreather.  Na SDI por exemplo o mergulho com rebreather  “recreativo” não existe.  O mergulho com rebreather está no escopo da TDI (mergulho técnico).  Mesmo que utilizado nos limites do mergulho recreativo, consideramos o mergulho com CCR muito complexo para abordagem do nível recreativo (SDI e TDI são agências irmãs).

Neste caso, lembre-se que no mergulho recreativo os mergulhos com CCR devem ser feitos sem a obrigatoriedade de uma parada de descompressão (limites não descompressivos).

Procedimentos de checagem do equipamento e pré-mergulho

Existem três coisas importantes que todo Divemaster deve observar ao receber um mergulhador com reberather:

  • Bailout (reserva)
  • Check List (Lista de verificação/checagem para montagem da máquina)
  • Check list Pré_mergulho (lista de verificação/checagem antes do mergulho)

BO  (cilindro de reserva)

Todo mergulhador de rebreather deve carregar um ou mais cilindros de BO (bailout = Reserva).  Este cilindro na verdade é o bom e confiável SCUBA de circuito aberto. Um cilindro pequeno ou vários cilindros (dependendo do perfil do mergulho) com um regulador acoplado.  Normalmente este regulador vem acompanhado de um manômetro e uma mangueira de inflagem (que é acoplada ao CCR quando necessário).

Por questões de segurança todo mergulhador de rebreather deve carregar uma unidade SCUBA para emergências.  Esta unidade deve ter gás suficiente para realizar uma subida com segurança até a superfície.  Se este mergulho exige uma ou várias paradas de descompressão os cilindros devem suprir este tempo/demanda de gás e misturas.

Como operador de mergulho ou Divemaster pode verificar isso?

Procure saber dos mergulhadores qual perfil eles pretendem fazer.  Quantas horas de fundo e qual os limites de tempo ou descompressão.

O cálculo da quantidade de gás necessária nos cilindros de BO são os mesmos do sistema tradicional. A única diferença é que como mergulhadores de rebreather necessitamos apenas da quantidade para subir e não a quantidade para executar o mergulho mais a quantidade para subir.   Portanto não estranhe um mergulhador de rebreather fazer um mergulho de duas horas e levar apenas uma S40.  Se não há deco a cumprir, este pequeno cilindro é suficiente para subir até superfície com segurança.

Porém existe uma coisa importante!

Quem será o dupla deste mergulhador de rebreather?  O Divemaster da operação em OC (circuito aberto) ou outro mergulhador de circuito aberto?

Aí existem alguns cuidados a se tomar.  O mergulho com rebreather como já foi falado requer que o mergulhador carregue sua própria redundância de gás e são auto-suficientes em caso de falta de gás.

Mas ao mergulhar com um dupla em OC ou com o DM em OC ele deverá se preocupar em como fornecer gás a este mergulhador de circuito aberto, caso ele venha a ficar sem gás.

Portanto ou o mergulhador de rebreather leva um cilindro a mais para este mergulhador  ou ele acopla um segundo estágio a mais (que seria como o “Octopus” do mergulho recreativo) no seu cilindro de BO ou o próprio dupla que está em OC leva sua redundância de gás (conhecido no mergulho recreativo como Fonte Alternativa Extra de Ar) como os ribreiterios fazem.

O conceito de BO deveria na verdade ser usado por todos os mergulhadores e já é obrigatório em alguns países como na Europa a partir de 30 metros, mas este assunto será tema outra matéria.

Check List (Lista de verificação/checagem para montagem da máquina)

Como toda atividade de mergulho o CCR tem muitos riscos envolvidos que devemos gerenciar. O check list poderá́ ajudar a não cometer erros de montagem e detectar defeitos antes do “voo”.

A lista de checagem é um tipo de ajuda de trabalho usada para reduzir falhas da memoria humana e de atenção. Ela ajuda a garantir a consistência e integridade na realização de uma tarefa. Muito usada na aviação para garantia de que a máquina está funcionando corretamente e que todos os itens de segurança e de voo estão acionados e funcionais além de outras informações.

Todo mergulhador de rebreather, ao fazer a montagem da máquina, deve realizar uma lista de checagem que é fornecida pela fábrica.   Esta lista de checagem na maioria das vezes é uma lista de procedimentos e verificações impressa em papel em uma prancheta, na qual o mergulhador vai marcando o que foi feito e anotando certas informações importantes.

Segundo o historiador e escritor Atul Gawande, o conceito de uma lista de verificação pré-voo foi introduzido pela primeira vez pela Boeing Corporation na sequencia do acidente de 1935 com um protótipo B-17 no campo de Wright, em Dayton, Ohio, matando os dois pilotos. A investigação descobriu que os pilotos se esqueceram de soltar um mecanismo de ajuste critico da asa antes de decolar.  Este procedimento é o mais importante no mergulho com rebreather.   A montagem da máquina pode ser tão complexa que exige a necessidade de uma lista de verificação para que não se esqueça de nenhum procedimento importante na montagem e que se possa obter informações vitais sobre o funcionamento da máquina.

Este procedimento comum no mergulho técnico e no mergulho com rebreather não é muito utilizado no mergulho recreativo mas muitos mergulhadores recreativos o fazem (mesmo que de cabeça ) por exemplo ao verificar se estão levando tudo para a viagem de mergulho.

Veja um exemplo de check list de montagem da máquina Prims2 da Hollis

checklist-hollis

Como operador de mergulho você pode exigir que o mergulhador mostre o check list de montagem e ainda se quiser, pode deixar uma cópia com você.

Assim você assegura que este mergulhador cumpriu com os requisitos da fábrica na montagem.

Check list Pré_mergulho (lista de verificação/checagem antes do mergulho)

Assim como a lista de checagem de montagem, muitas agências disponibilizam as verificações pré-mergulho.  Estas servem para garantir que a máquina está funcionando alguns minutos antes do mergulho.

tdi-checklist

Esta lista de verificação pré mergulho pode ser exigida pelo Divemaster antes dos mergulhadores caírem na água.

Outros itens que o Divemaster pode exigir são:

  • Mostrar os cilindros abertos (o2 e diluente) – o2 normalmente pouco aberto.
  • Mostrar como pode inflar o diluente e sua localização.
  • Como funciona a DSV/BOV
  • Funcionamento/ etiquetagem dos cilindros de Bail out.
  • Planejamento do mergulho.

Procedimentos Logísticos

Rebreathers e seus BO são equipamentos pesados e volumosos. Isso acarreta um grande arrasto e o mergulhador de rebreather que têm muita dificuldade em nadar contra correntes.  Uma corrente moderada que seria facilmente vencida por um mergulhador com um cilindro, colete jacket e roupa úmida se torna uma verdadeira luta com um rebreather, cilindros de BO e roupa seca.

Procure fazer com que eles não nadem muito pela superfície e se possível que evitem nadar contra correntes.  A melhor forma de permitir que estes mergulhadores desfrutem do mergulho é permitir que eles sejam os primeiros a cair no local de mergulho.

Por exemplo: se sua operação é feita em um naufrágio. Os mergulhadores de rebreather podem ser os primeiros a cair na água juntamente com o DM para amarar o barco ao naufrágio.  Enquanto os mergulhadores recreativos se preparam para equipar e entrar na água eles já estão lá embaixo curtindo o mergulho por mais tempo.  Também por caírem “em cima” do naufrágio é mais fácil pois só terão que nadar para baixo e não terão que nadar se puxando pelo cabo.

Se isso não for possível, ao menos deixe um cabo de ligação do barco ao cabo de descida (conhecido como cabo de natação ou swinging line ).   Se este cabo estiver acoplado a trail line (cabo de fuga/popa) seria ótimo.  Melhor ainda se este estiver de 5 metros até 10 metros ou abaixo da corrente de superfície.

tdi-diagram

Uma diferença importante para o operador saber é:  diferentemente do mergulho com circuito aberto, onde o mergulhador tem que descer relativamente rápido até o naufrágio ou perderá gás para executar o mergulho, mergulhadores de rebreather tem disponível mais de 8 horas de gás. Deixar eles descerem por um cabo na popa que está ligado ao cabo de descida lá nos 10m ou mais não é nenhum problema, pois mergulhadores de rebreather não tem pressão de tempo/gás (esta é umas das maravilhas do rebreather). Ou seja, estes mergulhadores não tem presa em descer mas tem muita dificuldade em nadar contra correntes.

Procedimentos de emergência (como ajudar em caso de emergência?).

Uma das maiores dúvidas que passa na cabeça de um Divemaster, principalmente os de nível recreativo onde na maioria das vezes em seus cursos de Divemaster aprender que no caso de: “mergulhadores técnicos,  a melhor maneira de ajudar é não atrapalhar, eles são auto-suficientes”.

Isso pode ser verdade por um lado, sim eles são mergulhadores técnicos e têm muito conhecimento, mas sabem mergulhar no seu local de mergulho?  Se for a primeira vez, com certeza não.

Cabe o Divemaster da operação ajudar sim, pois eles merecem ser tratados como qualquer cliente da operação, com presteza e com dedicação.

Mergulhadores técnicos de rebreathers (conhecidos no Brasil pelo apelido de ribritheiros) são seres humanos limitados como qualquer um.  Muitos tem dificuldade em nadar em correntes fortes e muitos estão começando e aprendendo a mergulhar com estas máquinas e sim, precisam de ajuda.

Mas o que fazer se um ribritheiro lhe pedir ajuda em embaixo da água ou você perceber uma situação estranha no fundo (parado ou imóvel por algum tempo).

Se um mergulhador de rebreather estiver lhe pedindo ajuda, trate como um mergulhador  “sem ar”.

Insista que ele deve respirar do seu circuito aberto “Octopus” ou que ele respire do cilindro de bailout para respirações de sanidade.

Negação pode ser sintoma de hipercapnia (narcose por CO2) ou mesmo hipóxia.  Todo mergulhador de rebreather segue esta regra básica de segurança:  When in Doubt ! Bailout !(quando em dúvida! Vá para o cilindro reserva!)

Estatisticamente os acidentes fatais de mergulho com rebreather acontecem na sua maioria por um problema que é possível com rebreathers e/ou trimix somente (no mergulho recreativo com ar ou nitrox isso nunca irá acontecer),  a hipóxia.

A hipóxia pode matar rapidamente um mergulhador de rebreather. A superfície ou mergulhos rasos são os mais perigosos. Por isso caso um mergulhador de rebreather apresente estes sinais, trate-o como mergulhador “sem ar”.

Os sinais de hipóxia:

  • Euforia.
  • Retardo na resposta.
  • Não compreende a severidade do problema.
  • Mergulhador de rebreather parado ou estático pode ser hipóxia.
  • Inconsciência.

O que não fazer:

  • Subida rápida no CCR pode levar a hipóxia fatal!
  • Não arranque o bocal!
  • Não injete O2

O que fazer:

  • Se estiver consciente e souber como: injete diluente! Nunca O2! (a menos que o mergulho esteja com diluente trimix hipóxico e estiver raso demais para esta mistura.
  • Se estiver respondendo convença-o a ir para o bailout. Negação é comum, seja insistente!
  • Subida rápida –  acompanhe o mergulhador! Severo risco de hipóxia se o mesmo estiver no CCR.  Lembre-se de manter-se dentro de sua margem de segurança, se a subida for muito rápida não se coloque em risco mas suba para acompanhar o mergulhador na superfície (grande risco dele estar inconsciente na superfície).

Os acidentes com rebreathers são 10 vezes maiores que no mergulho não técnico (recreativo) em circuito aberto.

O  mergulho scuba recreativo é sempre dito como seguro, porém na verdade não é (nada é seguro).  É uma atividade de risco baixo menor que muitas atividades de lazer, como: andar a cavalo, voar de asa delta, nadar em piscina ou mesmo jogar bola.   Por isso, pode ser executada sem medo pois assim sendo, um baixíssimo número de acidentes ocorre ( a cada 100.000 mergulhos 0.50 mortes).  Já o mergulho com rebreathers a cada 100.000 mergulhos 5.33 mortes.

Mas considerando que a maioria dos acidentes ocorrem por erro humano com a ajuda do Divemaster, verificando as máquinas junto com os mergulhadores e exigindo o cumprimento das normas, podemos dizer que estamos no caminho certo para evitar as mortes e acidentes com rebreathers sob supervisão.

Este assunto sobre acidentes e como lidar com casos de acidentes e mortes vamos deixar para a próxima matéria.

Resumindo:

Considere o check list de montagem e as checagens pré-mergulho como vitais, dê as boas vindas as estes mergulhadores, eles são clientes maravilhosos, geralmente muito bons de água e muito preparados.  Porém esteja atento a perfis “macho” divers e complacentes.


Eduardo Macedo – Instructor Trainer TDI # 8556

Related Blog Articles

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*